Agentes de IA em produção: o que 919 grandes empresas contam sobre confiança e controle

Uma pesquisa da Dynatrace com 919 líderes mostra que metade das grandes empresas já tem agentes em produção, que 69% das decisões ainda passam por uma pessoa e que o que trava a escala não é o modelo: é saber quando o agente pode agir sozinho e enxergar o que ele fez.

Produção25 out 20267 min de leitura

Faz dois anos que a conversa sobre agentes de IA gira em torno de demonstração. Um agente que responde e-mail, outro que monta relatório, outro que “trabalha sozinho”. A pergunta que importa para quem toca uma operação é outra: o que acontece quando o agente sai do piloto e entra no dia a dia da empresa?

A Dynatrace foi perguntar para quem já está nessa fase. O relatório The pulse of agentic AI in 2026 ouviu 919 líderes de grandes empresas, e o retrato é menos sobre tecnologia e mais sobre confiança, regra e visibilidade. Abaixo estão os números que mais importam e o que a gente tira deles.

O que a pesquisa mediu

Responderam diretores e vice-presidentes de engenharia, líderes de plataforma, executivos que decidem investimento e risco em IA, líderes de automação e times de confiabilidade (SRE). Os setores foram serviços financeiros, varejo, governo, utilities, transporte e software. O Brasil entrou na amostra, com 35 respondentes, ao lado de Estados Unidos, México, Canadá, Europa, Oriente Médio, Japão, Índia e Austrália.

Vale o aviso: a Dynatrace vende observabilidade, e a conclusão do relatório puxa para esse lado. Os números, porém, falam por si, e batem com o que a gente vê nas empresas daqui.

Os agentes já saíram do laboratório

Metade das empresas já tem agentes em produção para casos de uso específicos, 44% têm adoção ampla em alguns departamentos e 23% já integraram agentes na empresa toda. Quase três em cada quatro (72%) tocam de 2 a 10 projetos ao mesmo tempo.

O dinheiro acompanha. O orçamento atual fica, na maioria, entre US$ 2 e 5 milhões, e 74% esperam gastar mais no ano que vem. Quase metade prevê mais US$ 2 a 5 milhões.

Onde os agentes já trabalham
  • Operações de TI e monitoramento70%
  • Processamento de dados e relatórios51%
  • Cibersegurança49%
  • Atendimento ao cliente47%
  • Personalização do relacionamento44%
  • Geração de conteúdo41%
  • Vendas40%
  • Compliance e risco37%
  • Cadeia de suprimentos e logística33%
  • RH29%
  • Finanças28%
  • Jurídico12%

Dynatrace, The pulse of agentic AI in 2026. 919 respostas, várias por empresa.

A TI lidera porque é onde a tarefa é mais repetitiva e mais fácil de medir. Mas os casos que mais crescem nos próximos anos são os voltados para o cliente, e o jurídico, hoje o menos comum, deve triplicar. A lista acima é um retrato, não um limite: se é tarefa que se repete, dá para automatizar, em qualquer área.

O que trava não é o modelo

Quando a pergunta é o que impede um projeto de ir para produção, as respostas quase não falam de qualidade do modelo. Falam de controle.

O que mais trava a ida para produção
  • Segurança, privacidade ou conformidade52%
  • Gerenciar e monitorar agentes em escala51%
  • Falta de gente qualificada44%
  • Caso de negócio ou ROI pouco claro33%
  • Orçamento ou infraestrutura32%
  • Resistência de gestores ou usuários31%

Dynatrace, The pulse of agentic AI in 2026. 919 respostas, várias por empresa.

No detalhe da segunda barreira aparece o ponto mais interessante do relatório: 45% não conseguem definir com clareza quando o agente pode agir sozinho e quando precisa pedir aprovação. Logo atrás vêm a falta de visibilidade de como o agente decide (41%), a dificuldade de monitorar custo e desempenho a cada versão nova (40%) e a dificuldade de rastrear o efeito de um erro em outros sistemas (36%).

O gargalo é de desenho, não de tecnologia. Antes de ligar um agente, alguém precisa escrever a regra: o que ele faz sozinho, o que ele sugere e o que ele nunca faz sem uma pessoa.

Os critérios para aprovar a ida à produção seguem a mesma linha: segurança e privacidade dos dados (59%) e precisão das respostas (55%) na frente, monitoramento e controle do comportamento (44%) logo depois. Para quem opera no Brasil, segurança e privacidade passam pela LGPD; na Europa, pelo GDPR.

Gente no circuito é escolha, não atraso

69% das decisões dos agentes ainda são verificadas por uma pessoa. E isso não aparece como um problema a resolver. Só 13% das empresas constroem apenas agentes totalmente autônomos; 64% misturam agentes autônomos e supervisionados, e 23% fazem só supervisionados.

Mesmo olhando para o futuro, a meta não é tirar as pessoas. Em TI e atendimento de rotina, as empresas miram uma divisão perto de 50/50 entre IA e pessoas; nas áreas de negócio, como finanças, RH, jurídico e vendas, perto de 60/40 com mais peso humano.

Quanto do trabalho fica com a IA hoje e no futuroHojeFuturo
  • Processamento de dados e relatórios42%54%
  • Atendimento ao cliente39%49%
  • Gestão do conhecimento e documentos36%50%
  • Vendas29%41%
  • Finanças27%38%
  • Jurídico22%36%

Dynatrace. Parcela de empresas que querem o trabalho “mais conduzido pela IA” em cada área. O resto fica dividido com pessoas ou conduzido por pessoas.

A conta é simples: a IA executa o que se repete e o que é urgente, e a pessoa define objetivo, limite e responde pelo resultado. É o mesmo desenho que defendemos no texto sobre human-in-the-loop: revisão humana nos pontos certos, não em tudo.

Como as empresas medem (e onde ainda fazem na mão)

O sucesso dos agentes é medido primeiro por desempenho técnico (60%), eficiência operacional (56%) e eficiência dos desenvolvedores (54%). Resultado de negócio vem depois (48%). Entre os indicadores de retorno, produtividade (45%) e satisfação do cliente (43%) lideram, e taxa de uso diário fica por último (23%).

O dado que mais chama atenção é outro: 44% ainda revisam na mão a conversa entre agentes. Quando um agente passa trabalho para outro, alguém lê o histórico para ver se deu certo. Funciona com três agentes. Não funciona com trinta.

E 30% dizem que têm dificuldade de ligar o que o agente fez a um resultado do negócio. Medir tempo de resposta do modelo é fácil; difícil é dizer quanto aquilo reduziu de retrabalho, prazo ou custo. Por isso a gente insiste em combinar as métricas antes de começar, e não depois.

O plano de controle

A tese central do relatório é que a observabilidade, o registro em tempo real do que cada parte do sistema está fazendo, precisa deixar de ser só um painel e virar um plano de controle: a camada que dá aos agentes fatos confiáveis para decidir, impõe limites que não dependem do humor do modelo e registra cada ação para alguém auditar depois.

Na prática, isso quer dizer enxergar sete camadas ao mesmo tempo: o resultado de negócio, a experiência do usuário, a orquestração, a conversa entre agentes, o modelo, a busca nos dados (RAG) e a infraestrutura. Já usam observabilidade em alguma fase 69% na implementação, 57% na operação e 54% no desenvolvimento, mas só 40% acompanham a comunicação entre agentes e o uso de MCP.

Para quem está começando, a recomendação do relatório é ir por etapas, e é a parte mais útil para levar para a reunião:

  1. Começar por operações preventivas e fluxos em que o agente recomenda e a pessoa decide.
  2. Supervisionar: com uma pessoa no circuito, dar mais autonomia aos poucos, à medida que os dados, os sistemas e os sinais ficam confiáveis.
  3. Graduar para a autonomia total só onde dá para verificar, em tempo real, o que cada componente está fazendo.

Para entender o que dá para registrar e acompanhar, vale ler o nosso texto sobre observabilidade de agentes de IA e o de como levar um piloto de IA para produção.

O que isso muda na prática

A pesquisa olha para empresas grandes, mas a lição serve para qualquer tamanho: o agente que funciona na demonstração precisa de três coisas para virar operação.

  • Regras de autonomia escritas. Para cada etapa: o agente faz, o agente sugere ou o agente para e pede aprovação. É a barreira número um da pesquisa e se resolve no desenho, antes do código.
  • Registro de tudo. Cada decisão, cada ferramenta chamada, cada passagem entre agentes, num lugar onde alguém consiga olhar e auditar.
  • Métricas combinadas antes. Erro, retrabalho, tempo de ciclo e custo, medidos antes e depois. Sem isso, a conversa sobre retorno vira opinião.

É o trabalho que fazemos com os clientes. O Analista de IA mapeia a rotina, encontra o que se repete e escreve as regras e as métricas. O Forward Deployed Engineer coloca os agentes dentro dos sistemas que a empresa já usa, com registro e aprovação humana nos pontos certos. E o treinamento lado a lado cuida de quem vai supervisionar.

Os agentes já estão em produção. Quem escreve as regras, registra cada passo e mede o resultado consegue dar mais autonomia a eles com segurança.

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