Muita empresa já teve um piloto de IA que impressionou na demonstração e morreu duas semanas depois. O modelo era bom, a apresentação era bonita, e mesmo assim nada mudou no dia a dia do time.
Na maioria das vezes, o que faltou foi uma pessoa: alguém que entendesse de tecnologia e passasse tempo de verdade dentro da operação, vendo como o trabalho acontece, conversando com quem faz e ajustando o agente até ele aguentar a rotina real. É sobre esse papel que este texto fala.
De onde vem a ideia
Empresas de software que vendem para operações complexas perceberam há anos que entregar a ferramenta não bastava. Criaram então um papel que, em inglês, ganhou o nome de forward deployed engineer: o engenheiro que trabalha "na linha de frente", dentro do cliente, em vez de ficar só no escritório escrevendo código para um cliente imaginário.
O nome importa pouco. O que importa é a combinação: alguém que sabe construir e que, ao mesmo tempo, tem paciência para sentar ao lado de quem lança nota, atende cliente ou acompanha prazo e entender por que cada passo existe.
Com agentes de IA, esse papel ficou ainda mais necessário. Um agente toma pequenas decisões o tempo todo. Para decidir bem, ele precisa das regras da sua empresa, e boa parte dessas regras não está escrita em lugar nenhum. Está na cabeça das pessoas.
O que essa pessoa faz no dia a dia
O trabalho começa longe do código. Nas primeiras semanas, o engenheiro passa a maior parte do tempo observando e perguntando. Um bom roteiro parece com isto:
- Acompanhar quem executa o processo hoje, de preferência em dias normais e em dias de pico
- Anotar as exceções: o cliente que sempre pede prazo diferente, a nota que vem sem pedido, o caso que "a fulana resolve"
- Mapear quais sistemas são tocados, em que ordem e com qual acesso
- Separar o que é regra clara do que é julgamento de alguém experiente
- Combinar com o responsável do processo onde o agente para e passa para uma pessoa
Depois vem a construção, em ciclos curtos. O engenheiro liga o agente aos sistemas que a empresa já usa, roda com casos reais em paralelo ao time, olha cada erro com quem entende do assunto e corrige. Isso se repete até o agente acertar o suficiente para começar a agir, primeiro com aprovação humana e depois com mais autonomia onde fizer sentido.
Por fim, ele fica por perto quando o agente vai para produção. É aí que aparecem os casos que ninguém previu, e alguém precisa estar ali para entender o que aconteceu e ajustar no mesmo dia.
Por que é ele que tira o agente do piloto
Um piloto costuma ser montado com dados limpos, poucos exemplos e um caminho feliz. A operação real tem registro duplicado, cliente que manda áudio em vez de texto, sistema que cai na segunda de manhã e regra que mudou no mês passado. A distância entre os dois é onde a maioria dos projetos para.
O piloto prova que a ideia funciona. Quem está dentro da operação prova que ela aguenta a rotina.
Quem está dentro da operação fecha essa distância por três motivos:
- Vê o problema de perto. Ele não depende de um relatório para descobrir que o agente errou. Ele está ali quando acontece, com o caso aberto na tela.
- Fala a língua do time. Consegue traduzir "esse cliente é especial" em uma regra que o agente entende, e explicar ao time por que o agente fez o que fez.
- Ganha a confiança das pessoas. Quem vai trabalhar ao lado do agente precisa confiar nele. Essa confiança vem de ver alguém ouvindo as objeções e corrigindo, e não de um treinamento de uma hora.
Sem essa pessoa, o caminho comum é o time de TI ou o fornecedor receber uma especificação, construir em separado e entregar algo que funciona no papel. O time da operação encontra os primeiros erros, perde a paciência e volta para o jeito antigo.
O que esse papel não é
Vale separar de outros papéis que às vezes são vendidos com o mesmo nome:
- Não é só consultoria. Um consultor desenha o processo ideal e vai embora. O engenheiro constrói, coloca para rodar e mantém.
- Não é só suporte. Suporte espera o chamado chegar. O engenheiro vai atrás do problema antes de virar chamado.
- Não é um programador isolado. Se a pessoa passa o dia inteiro sem falar com ninguém da operação, ela está fazendo outro trabalho.
- Não substitui o responsável do processo. Quem decide as regras do negócio continua sendo alguém da sua empresa. O engenheiro traduz essas decisões para o agente.
Como trabalhar bem com essa pessoa
Do lado da empresa, algumas decisões fazem muita diferença no resultado:
- Defina um responsável interno pelo processo, com tempo reservado na agenda para responder dúvidas
- Libere acesso às pessoas que executam o trabalho, e não só aos gestores. Quem faz sabe as exceções
- Dê acesso de teste aos sistemas cedo. Esperar semanas por uma credencial atrasa tudo
- Combine desde o início como vai medir se deu certo, com um número que o time já acompanha
- Aceite que as primeiras semanas parecem lentas. Entender bem o processo economiza meses depois
Também ajuda tratar o engenheiro como parte do time durante o projeto: incluir nas reuniões da área, avisar quando uma regra muda, chamar quando algo estranho acontece. Quanto mais ele souber, melhor o agente decide.
Perguntas para fazer antes de contratar
Se você está avaliando quem vai construir seus agentes, estas perguntas ajudam a separar quem trabalha dentro da operação de quem só entrega uma ferramenta:
- Quem, com nome, vai acompanhar nossa operação no dia a dia?
- Quanto tempo essa pessoa passa com o nosso time antes de começar a construir?
- Como vocês descobrem as exceções do processo?
- Como o agente vai rodar em paralelo antes de agir sozinho?
- Quem olha os erros depois que o agente entra em produção, e em quanto tempo?
- O que acontece quando uma regra do negócio muda?
- O código, as contas e os acessos ficam em nome de quem?
Respostas vagas para as primeiras perguntas costumam indicar um projeto que vai funcionar na demonstração e travar na operação. Respostas concretas, com nomes, prazos e um jeito claro de lidar com erro, indicam o contrário.
Agente bom é aquele que alguém da sua operação ajudou a construir e alguém de tecnologia ficou por perto para manter.